MGMT, ou Os Agregadores Niilistas
Para o MGMT, Nietzsche tem tudo a ver com era digital, remix e novos rumos pro rock

MGMT, Oracular Spectacular (Red Ink/Columbia, 2007)
Se os anos 2000 foram um imenso revival das décadas anteriores, permeados de um vazio criativo que se limitou, muitas vezes a remontar e desconstruir sonoridades clássicas de guitarras e modulações vocais, os anos que antecederam o fim da década pelo menos parecem apontar numa direção ligeiramente diferente.
Em 2007 saía o manifesto niilista da dupla MGMT (pronuncia-se Management). Oracular Spectacular, álbum de estréia do duo do outro lado da ilha de Manhattan. Passeando entre referências warholescas e um pouquinho de Nietzsche em suas letras, esses rapazes de jeito duvidoso misturam o melhor do britpop a la Suede com o glam-rock consagrado por Bowie e novíssima cultura do remix, sendo que eles são saídos diretamente do Myspace para uma grande gravadora.
Vem da inspiração em Bowie (especialmente o Aladdin Sane Bowie) a atitude hipponga neo-espacial, colorida e andrógena de Andrew Van Wyngarden, o vocalista e sex-symbol das garotinhas new-rave. Mas o que chama mesmo a atenção e torna o disco relevante é o conteúdo de suas músicas, recheado de questionamentos existencialistas – que são expostos de uma maneira essencialmente pop e moderna.
Canções como “Time to Pretend” e “Pieces of What” refletem um sentimento esquisito que acompanha a maioria dos jovens da geração Y, um pouco menos folgados que os seus irmãos mais velhos mas que vivem num mundo em transformação e novo questionamento de valores, limites e liberdades. Em particular a faixa de abertura, “Time to Pretend”, é uma declaração niilista da uma deturpada visão narcisista e sem expectativas grandiosas, de viver num rico e glamouroso vazio.
Mas há alguma doçura, pois “Electric Feel” é a baladinha favorita dos namoradinhos 2007-2008, dona de um poderoso baixo que costuma incendiar as pistas de dança moderninhas dos clubes e inferninhos rock’n’roll que se espalham nas metrópoles.
A verdade é que o MGMT é uma banda do seu tempo, de jovens de verdade que encaram a dura realidade para do rock moderno: a fonte está esgotando. Mas ao contrário de tantos outros que, aterrorizados ao perceber este fato em vias de consumação, se coloca de peito aberto a tentar alguma coisa diferente, tal como o jazz fez nos anos 70.
Se essa é a geração do agregar, então o MGMT pode ser visto como uma metalinguagem do fim dos anos 00s e da mistura de falta de perspectiva e excesso de informação que vive o rock atual. O que nem de longe significa que é uma peça ruim, mas sim que ela assusta um pouco.
DOWNLOAD: http://isohunt.com/torrent_details/48085279/mgmt+oracular?tab=summary
Interpol ou Quando fugir do óbvio é aceitar o óbvio

INTERPOL, Turn On The Bright Lights (2002, Matador Records)
Quando se depara com um texto sobre o Interpol a primeira pergunta que o cara faz para si mesmo é quantas palavras virão até a primeira comparação com o Joy Division. Nesse caso são 33. Na melhor música de Turn On The Bright Lights, debut álbum dos nova-iorquinos, eles nem mesmo conseguem decidir qual música dos pré-New Order é que estão tentando mastigar.
Talvez um pedacinho de “She’s Lost Control” que acidentalmente se transforma numa brilhante canção extremamente a cara da própria banda. Mas a verdade é que comparar os dois seria injusto para estes bichinhas hype da alta-costura de NY, efervescente naqueles idos da virada do século 21.
Nova York foi, junto de Londres, a Meca dessa nova geração do rock’n’roll que nos era prometida como ‘a salvação do rock’. Semana após semana, graças aos Strokes, tínhamos um novo grupo messias. Mas ao diferentemente dos Vines, Hives, Strokes ou qualquer outros grupos de garage-revival, o Interpol ia por outro lado e talvez por isso tenha chamado tanta atenção.
Se garotas bonitas fazem poses, garotos bonitos então fazem bandas. E no ‘submundo’ glamourouso dos descolados de NY o Interpol encontrou sua inspiração. Sempre bem vestidos, em ternos pretos e camisas vermelhas (tudo de grife), essas bichinhas traduziam um mundo cada vez mais blasé.
Decadência e depressão são temas em comum com a banda de Ian Curtis. Tanto o Interpol quanto o Joy Division exploram um vasto espaço entre luz e sombra, no qual frequentemente encontram formas parecidas de produzir algo penoso, profundamente doído e, ainda, bonito.
Mas daí, a não ser por alguns tiques no vocal de Paul Banks, as comparações óbvias ficam pra trás. A decadência do Interpol é muito diferente daquela enfrentada pela atmosfera depressiva que circulava no fim dos anos 70, início dos 80s, de indiscriminado uso de cocaína e sombras nos olhos e suicídios e péssimo senso estético fashion.
Para o Interpol a decadência é muito mais moral. É da alta-sociedade, também viciada em cocaína, e as mulheres fáceis, e os defeitos morais de cada um, e a sensação de solidão e constante pressão do ambiente externo e as marcas que as frustrações e todas essas falhas de caráter deixam em cada um.
Em Turn On The Bright Lights Paul Banks, Carlos D e cia retratam sua vidinha morna, de onde também saiu os Strokes de Julian Casablancas (filho de um dos maiores agenciadores de top models do mundo), com longos interlúdios de guitarras sobrepostas e um baixo forte e bem marcado por Carlos, que mais parece o rapaz de “A Vingança de Willard”.
Discorrendo sobre as mulheres depressivas e cheias de problemas existenciais (como em “Stella Was A Diver And She Was Always Down” ) a banda acabou por ser uma das poucas hypadas daquele ano de 2002 que continua com tudo em cima até hoje. Talvez por ter fugido do óbvio, talvez por ter referencias tão diferentes das outras que surgiam àquela altura, talvez por que o óbvio não seja tão óbvio assim até que alguém perceba. Como ninguém tinha previsto essa onda revival oitentista?
Ou simplesmente talvez por que ela foi a que melhor retratou esse hype todo: com a decadência de quem roda atrás de algo novo mas acaba sempre se encontrando com suas referências. Ou seriam fantasmas?
DOWNLOAD: http://isohunt.com/torrent_details/28324649/turn+on+the+bright+lights?tab=summary
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